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10/02/2025

IA pelo mundo: o Deepseek, os novos modelos e as ‘viradas de jogo’ no mercado

Impactos da nova revolução tecnológica são tema constante na comunidade de IA voltada para o setor financeiro, IA4FIN


por André Martinez



No dia 27 de janeiro, quando foi lançado oficialmente o DeepSeek, Inteligência Artificial (IA) da China, uma verdadeira  euforia foi vista pelo mundo, especialmente no mercado financeiro, gerando diversas dúvidas e novas expectativas.


O tema também foi destaque nas comunidades de IA do Brasil, que reúnem especialistas e gestores empenhados em se manterem atualizados sobre os próximos passos da prometida revolução. Na comunidade IA4FIN, os impactos causados por esta corrida tecnológica viraram pauta entre os membros, que compartilharam suas reflexões. 


Rosa Oliveira, Desenvolvedora Web e CEO da Viver de Crédito, admitiu estar surpresa com a velocidade da evolução das IAs. Ela trabalha na área do marketing e tem estudado bastante as novas tendências da IA pelo mundo, que têm proporcionado um “salto brusco” na linha evolutiva da tecnologia: 


“Me dá a sensação de que levaria anos [para chegar a esse patamar tecnológico]. É como se estivéssemos no meio de algo que a gente só vai perceber o impacto depois que já tiver virado história”.


Apesar da empolgação, o sentimento de dúvida e receio com o futuro também existe. Para ela, é como se “agora, tudo que lemos viesse com a dúvida se foi feito por uma pessoa ou pela IA, como se o uso da IA estivesse invalidando nosso pensamento, nosso repertório, nossa criatividade”.


DeepSeek x Chat GPT


Quando o assunto é o novo modelo apresentado ao mercado pela startup chinesa, a comparação é inevitável. Uma das questões que borbulhou na mídia – e também na bolsa de valores – foi a “ameaça” que a IA chinesa passou a oferecer ao principal concorrente, o ChatGPT, a primeira open source de IA generativa no mundo, que foi criada nos EUA e é vista como a grande revolução tecnológica dos tempos atuais.


Para evitar especulações e boatos de qual IA é mais eficiente, a própria Deepseek divulgou um relatório comparativo, no qual algumas conclusões ajudam a direcionar os usuários: 


  • O Chat GPT continua sendo melhor para responder perguntas complexas (75,7% a 71,5%), já que tem uma taxa maior de conhecimento geral de diversas áreas (91,8% contra 90,8%); 
  •  A IA estadunidense é ideal para tarefas criativas e respostas que podem ser desativadas, além de ser ótimo para auxiliar no desenvolvimento de ideias e em trazer respostas personalizadas; 
  • Já o DeepSeek tem a vantagem de ser menos exposto a “alucinar”, mais preciso em resultados de buscas e mais eficiente quando integrado a ferramentas corporativas, além de ser mais eficiente em cálculos matemáticos avançados (79,8% a 79,2%) e programação (49,2% contra 48,9%).


Apesar da China ter divulgado que o DeepSeek foi criado por apenas 5,8 milhões de dólares, e mesmo assim possuir rendimento tão bom quanto o Chat GPT, o site especializado SemiAnalysis aponta dados bem diferentes, conforme apurou a Exame. Na realidade, a investigação da empresa aponta para uma infraestrutura muito mais cara, cerca de 1,6 bilhão de dólares, com mais 50 mil GPUs da Nvidia. 


A hipótese sugerida para explicar a diferença dos números é que a empresa tenha apresentado apenas uma fração do investimento real, ignorando despesas com infraestrutura e treinamento de modelos, por exemplo. 


João Pedro Brasileiro, embaixador da IA4FIN, avalia que, caso as informações da China sejam verdadeiras e o estudo da SemiAnalysis se prove errado, “talvez o dinheiro dos investidores [estadunidenses] esteja indo para o lugar errado ou sendo gasto de maneira não eficiente”. Dessa forma, como concorrentes diretos, na visão dele, a Open AI deve “parar as máquinas” e estudar como a DeepSeek conseguiu isso.


Brasileiro é CEO da Innovation Latam, plataforma voltada ao desenvolvimento de programas de inovação aberta, e tem vivido de perto a evolução da IA no mundo e no Brasil desde o seu surgimento, em 2022. “Minha curiosidade se tornou uma paixão. Hoje meu dia-a-dia tem a eficiência elevada com essas ferramentas e elas também fazem parte do meu novo negócio, a consultoria de IA 🤖🤘RobotRock”, conta.


Para ele e tantos outros gestores de tecnologia, acompanhar de perto os próximos passos dessa corrida é um caminho necessário e estratégico para entender quando (e se) o “jogo” virar.


Sobre seus perigos


Voltando ao tema da velocidade, a “virada de jogo” é mesmo imprevisível no contexto tecnológico em questão. Na mesma semana do lançamento da DeepSeek, por exemplo, a empresa teve dados pessoais de usuários da foram vazados para o mundo, baixando a expectativa do mercado. A segurança dos dados, aliás, tem sido, desde o início, um ponto crítico na adoção da tecnologia pelo mercado corporativo, e vem sendo superado com muita cautela, especialmente no setor financeiro, que lida com dados tão sensíveis. 


“O risco é compartilhar informações sigilosas que podem ser usadas não só para treinar o modelo [de IA], como também que podem ser utilizadas para validar o comportamento das IAs pelas equipes, as quais terão acesso direto aos dados”, alerta Brasileiro.


Guerra Fria 2.0?


Com a rivalidade crescente nos últimos anos entre EUA e China, muitas pessoas temem estar vivendo uma “Nova Guerra Fria”, fazendo menção ao período da corrida tecno-espacial protagonizada por estadunidenses e soviéticos. Assim como na segunda metade do século XX, essas nações são principais concorrentes econômicas e, atualmente, também duelam para mostrar quem tem mais influência geopolítica no mundo.


Mas para o futurista Gui Rangel, que trabalha com a exploração, mapeamento e decodificação de tendências emergentes no mundo da ciência, tecnologia e empreendedorismo, esse receio não é justificado. Mesmo havendo  semelhanças entre a atualidade e a batalha entre EUA e URSS, “hoje, vivemos em um mundo altamente interconectado, onde economias e sistemas políticos são profundamente interdependentes”.


Apesar de comparar o lançamento da DeepSeek com o do Sputnik pelos soviéticos, em que ambos chocaram os EUA - e, consequentemente, todo o Ocidente -, ele reitera as diferenças dos cenários: 


A antiga Guerra Fria era marcada por uma divisão clara entre dois blocos ideológicos e econômicos. Hoje, as rivalidades são mais difusas. China e EUA, apontados como principais antagonistas, são ao mesmo tempo adversários estratégicos e parceiros comerciais”.


Fato é que a corrida tecnológica está cada vez maia intensa. Aproveitando a desmoralização sofrida pela DeepSeek após o vazamento de dados dos usuários, como já citado, a Open AI lançou o DeepSearch, novo modelo do ChatGPT, e considerado o mais avançado do mercado. Tudo para manter o domínio das IAs nas mãos do Ocidente.


Futuro do mercado financeiro


O futurista foi recentemente nomeado embaixador da IA4FIN e tem dedicado um olhar especial para o cenário da IA no futuro financeiro. Assim, embora não acredite em uma nova Nova Guerra Fria, destaca que está ocorrendo uma intensificação da competição geopolítica com impactos diretos sobre o ecossistema financeiro.


Redução da dependência do dólar americano de blocos econômicos (como o BRICS), corrida por Moedas Digitais, embargos a chips e restrições a empresas de IA, revolução no setor bancário e aumento de cibercrimes organizados, como deepakes, ransomware e fraudes financeiras, são alguns exemplos do que já está acontecendo, citados por ele.


Ao olhar para o futuro, porém,  revela qual será, para ele, uma das transformações mais radicais promovida pela IA: o surgimento do B2IA, para além do B2B e B2C: “Nesse novo contexto, em que o diálogo entre fornecedores e compradores ocorre com pouca ou nenhuma intervenção humana, as  vendas serão dedicadas exclusivamente a lidar com assistentes digitais baseados em IAs Agentes”.



Se você integra o setor financeiro e está de olho na evolução da IA, essa e outras discussões são fomentadas diariamente na comunidade IA4FIN. Se você já é membro mas ainda não está no grupo de WhatsApp, clique aqui para acessar o grupo. Se você ainda não conhece a iniciativa, clique aqui e saiba mais.